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“Criatividade é, talvez, o que temos de mais importante como espécie”

“Criatividade é, talvez, o que temos de mais importante como espécie”

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Por Fernanda Miranda

Por que o céu é azul? Hoje é o amanhã de ontem? Nevoeiro é uma nuvem que fica perto do chão? As perguntas e afirmações genuínas e nem sempre fáceis das crianças carregam questões que abarcam seu desejo de compreender e lidar com o mundo. Dito de outra forma, elas já nascem verdadeiros cientistas: jogam coisas no chão pra ver se quebra, fazem misturas mirabolantes dentro de um copo, surpreendem-se e divertem-se com as formas e texturas que o entorno oferece.

Marcelo Gleiser é um desses pesquisadores que, assim como as crianças, não parou de se questionar e de experimentar o mundo, mantendo vivo seu interesse sobre a realidade a sua volta. Atualmente, Gleiser dá aulas de física e astronomia na Universidade Dartmouth, nos Estados Unidos, é colunista do jornal Folha de S. Paulo e autor de diversos livros, entre eles “A Simples Beleza do Inesperado” e “A Dança do Universo”.

Apesar da agenda intensa, coloca em prática sua convicção de que é preciso deixar-se brincar, ser curioso e criativo, propiciando uma relação lúdica com a vida. “A criatividade é, talvez, o que temos de mais importante como espécie”, diz, satisfeito por ter escolhido seguir um caminho que estimula o olhar afiado sobre novas formas de enxergar a realidade. “Meu trabalho me permite, e na verdade até provoca, um estado criativo quase que constante”.

Nesse bate-papo com o programa Escolas Transformadoras, o físico defende a criatividade como manifestação indispensável na vida humana, e opina sobre quais são os diferentes contextos em que essa habilidade pode ser estimulada. Confira a entrevista!

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Escolas Transformadoras: Criatividade é um termo amplo, que pode ser compreendido de diversas maneiras. Para você, o que é criatividade e qual é a sua importância para o aprendizado e o desenvolvimento humano?

Marcelo Gleiser: Criatividade, a capacidade de produzir novos modos de explorar a condição humana em suas mais diversas manifestações, é, talvez, o que temos de mais importante como espécie. Em qualquer atividade, nas ciências, nas artes, nos esportes, criatividade é o que diferencia o prosaico do diferente, produzindo novas janelas para quem somos e o que somos capazes de fazer. Sem ela, somos brutos, sucumbindo apenas ao nosso lado puramente animal. O ser humano é um paradoxo, um animal ciente de sua própria mortalidade. Muito do que criamos é inspirado por esta tensão.

ETB: Você enxerga a criatividade como um valor importante para o atual contexto político, social e econômico brasileiro? Se sim, em qual sentido?

Marcelo Gleiser: Criatividade é sempre importante, em qualquer quadro político e econômico. Infelizmente, no quadro atual, a criatividade do brasileiro está meio que estrangulada, dada a falta de apoio aos cientistas e artistas. Os que permanecem criativos são, a meu ver, verdadeiros heróis e heroínas. Quando temos um número enorme de desempregados e desequilíbrio social, o essencial é captar ideias novas que possam amenizar a situação, e não sucumbir a fórmulas prontas e à demagogia política.

ETB: Você já afirmou em um artigo que “só não falha quem não está engajado em um projeto criativo”. Na sua opinião, estar aberto ao erro e ao fracasso pode potencializar o processo criativo? Por quê?

Marcelo Gleiser: Sem dúvida! O fracasso é essencial ao sucesso, e o melhor amigo da criatividade. Só quando falhamos podemos aprender e avançar em nossos projetos. Nenhuma ideia nasce pronta e já funcional. É na implementação, nos obstáculos que encontramos pelo caminho, nas falhas e fracassos, que a ideia evolui e amadurece.

ETB: Para muitos, a criatividade está associada à ideia do gênio, que já nasce com um dom, e para quem as ideias surgem como que magicamente. Você refuta esse entendimento ao afirmar que o sucesso de um projeto que envolve criatividade está mais relacionado a um processo feito com suor e trabalho duro. Poderia detalhar mais essa sua compreensão?

Marcelo Gleiser: A ideia de que gênio é aquele para quem tudo é fácil, que obtém respostas certas meio que por mágica, é um mito. Nenhum dos grandes cientistas e artistas criaram suas obras assim; o que produziram foi produto de muito esforço, de muitos fracassos, de muita tentativa e erro. Talvez a melhor marca do gênio seja a união rara de criatividade, coragem intelectual e persistência. O criativo não tem medo de arriscar e aprende a não ter medo de errar.

ETB: A curiosidade e o genuíno interesse pelas coisas ao redor são expressões inerentes à infância. Acontece que tais manifestações são muitas vezes moldadas ou até mesmo reprimidas pela família ou pessoas próximas das crianças. O quanto isso pode desestimular a autonomia e o desenvolvimento da criatividade delas? Essa repressão também pode desencorajar o interesse por profissões que incitam a curiosidade, como as relacionadas às ciências?

Marcelo Gleiser: Com certeza! Toda criança nasce cientista e passa anos explorando a realidade a sua volta fazendo “experimentos”: jogando coisas no chão para ver o que quebra, misturando coisas no copo, comendo o que deve e não deve do chão. Crescer é aprender a lidar com o mundo, e isso ocorre através da experimentação constante com ele. A criança que pergunta “por que?” o tempo todo está tentando entender as causas das coisas que vê. O cientista não passa de uma pessoa que manteve viva essa curiosidade sobre o mundo. Os pais e escolas que não exploram esse aspecto da infância estão comprometendo o futuro das crianças e, por consequência, da sociedade. Forjar criatividade é o dever de todo pai e educador, e isso é feito incentivando as crianças a perguntar e a explorar a realidade a sua volta.

ETB: O trabalho tem consumido o tempo das pessoas como nunca. Com a facilidade das tecnologias e o uso dos celulares, muitos passaram a ser facilmente localizados, seja onde estiver. Assim, a execução de tarefas pode acabar ocupando os fins de semana e os momentos de lazer. Com esses estímulos ininterruptos, há pouco tempo para o tédio e para a contemplação, ambos fundamentais para o estímulo da criatividade. Como você enxerga uma pessoa que não pode mais criar? O que seria de uma humanidade sem a criatividade?

Marcelo Gleiser: Seria o seu fim. Se deixarmos de criar, de nos expor a coisas novas, ao desconhecido, se deixarmos de fazer perguntas ou de ter a curiosidade de entender melhor quem somos, aniquilamos o que temos de mais precioso na vida, nossa capacidade de nos maravilhar com o mundo e com a vida. Se tudo reverte ao trabalho, se deixamos de brincar, de ter uma relação lúdica com a vida, nos tornamos autômatos, destituídos da capacidade de viver com a intensidade que precisamos viver.

Eu deixo o celular longe, e não consulto o e-mail durante horas de trabalho criativo. Quando vou correr nas montanhas, deixo toda a eletrônica em casa. Se nos deixarmos escravizar pelas telas violamos nossa essência mais pura, nossa conexão com o mundo à nossa volta, com as pessoas à nossa volta. Uma pessoa que não pode mais criar e se questionar sobre o mundo e si mesma é, tristemente, uma pessoa meio morta.

ETB: O que suas pesquisas mostraram para você sobre criatividade?

Marcelo Gleiser: Não pesquiso o tema diretamente. Mas o que vejo é que sem criatividade, sem a curiosidade de saber mais, o ser humano vai se desgastando, feito uma vela que vai queimando até se apagar. O que mais gosto no meu trabalho é que ele me permite, e na verdade até provoca, um estado criativo quase que constante. Afinal é o não-saber que gera o saber, o querer aprender sempre mais sobre o mundo. Essa união da curiosidade e a criatividade é, para mim, o que temos de mais importante, e que celebro todos os dias.

SAIBA MAIS: No dia 20 de agosto, o Escolas Transformadoras realizou um debate sobre a criatividade como um valor essencial na superação dos desafios sociais da atualidade. O evento foi transmitido ao vivo no Facebook do programa. Clique aqui e confira o vídeo na íntegra.

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