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“A exposição ao risco e a tolerância ao erro são ingredientes fundamentais no estímulo à criatividade,” diz Rodrigo Hübner Mendes

“A exposição ao risco e a tolerância ao erro são ingredientes fundamentais no estímulo à criatividade,” diz Rodrigo Hübner Mendes

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Por Amanda Leite

Existe um poema de Carlos Drummond de Andrade onde o mineiro diz que “todo o ser humano é um estranho ímpar” e é a partir desta frase, tão simples e intensa, que apresentaremos o professor e pesquisador de educação inclusiva Rodrigo Hübner Mendes; entretanto, para conhecê-lo de verdade, é necessário que voltemos alguns anos para entender como a educação surgiu na sua vida.

A história (quase) todo mundo já conhece: Mendes foi atingido por um tiro durante um assalto e, com 18 anos, se viu tetraplégico. “Comecei a frequentar a fisioterapia e fiquei chocado com a falta de apoio à pessoa com deficiência. Nesse ponto, já nasceu a indignação,” diz. Depois do acidente, descobriu na pintura uma maneira de reconstruir sua autonomia e aprender a viver seus dias com a deficiência. A experiência foi um divisor de águas: em 1994, resolveu dedicar sua vida à luta por uma sociedade mais inclusiva e criou o Instituto Rodrigo Mendes, inicialmente concebido como uma escola de artes. Ao longo dos anos, o Instituto foi ganhando nova forma e se voltou à produção de conhecimento sobre educação inclusiva, ganhando reconhecimento nacional e internacional.

Rodrigo se consolidou como um grande idealizador da educação inclusiva. No novo livro do Escolas Transformadoras, “Criatividade – mudar a educação, transformar o mundo”,, é  autor do artigo “Criatividade: potente catalisador para a inclusão escolar”, onde compartilha experiências realizadas de Norte a Sul do Brasil e discute sobre o potencial criativo que existe nos jovens (com e sem deficiência) para a resolução de problemas e o compromisso social.

Em entrevista ao Escolas Transformadoras, Mendes conversou sobre as dificuldades de se pensar uma escola inclusiva e sobre a potência da criatividade nesse processo. Leia agora:

Escolas Transformadoras do Brasil: No artigo que escreveu para o novo livro do Escolas Transformadoras, você conta a experiência da Escola Professor Nagib Coelho Matni com o aluno André, que é cego. Foi dada aos estudantes a missão de pensar em saídas criativas para ensinar física a ele. Como você avalia esses processos em que os estudantes são protagonistas de seu próprio aprendizado? Você acha que um ambiente escolar diverso, com estudantes de diferentes regiões, culturas, raça, com e sem deficiência, impulsionam processos criativos?

Rodrigo Mendes: Eu gosto muito de um pensamento do John Dewey que diz que, ao darmos aos alunos algo prático para fazer, não algo teórico para se aprender, a gente impulsiona o pensar e a aprendizagem ocorre naturalmente. Minha experiência com programas de formação continuada torna evidente o quanto é potente trazer o estudante para o papel de pesquisador, autor e criador. Um de nossos cursos, por exemplo, desafia professores de escolas públicas a criarem aulas de educação física inclusivas, ou seja, que garantam a participação de toda criança. Uma estratégia bastante explorada por eles é convidar os próprios estudantes a bolarem essas aulas, repensando regras, espaços e recursos. Quando há diversidade no grupo, esse processo parece ser ainda mais rico. A presença de estudantes com deficiência, no caso que mencionei, torna o desafio ainda maior e, na minha opinião, favorece a riqueza do processo criativo pois traz uma amplitude maior de perspectivas para o grupo.

ETB: Muitas vezes a criatividade é vista como uma característica exclusiva de algumas pessoas. Você acha que todas as pessoas podem ser criativas? É algo inerente ao ser humano?

Acho que sim, desde que ampliemos o nosso entendimento do que seja criatividade. Trabalhei 15 anos dirigindo um programa de arte-educação para grupos heterogêneos e pude testemunhar percursos encantadores no campo da criatividade, da poética. Penso que o ato criador não deve se restringir a ideias necessariamente disruptivas, transgressoras. Ele  pode também estar presente em pequenos gestos, opiniões singelas, desenhos aparentemente simples, etc. É papel do educador estar atento a essas manifestações que, quando reconhecidas e valorizadas, abrem portais no processo de aprendizagem, no desenvolvimento integral do estudante.

ETB: A criatividade pode ser um grande agente de transformação na escola, entretanto muitos educadores se sentem inseguros em inseri-la na sala de aula. Como a criatividade pode ser usada na educação?

A insegurança é uma consequência natural da incerteza gerada por novas estratégias de ensino e por novas práticas pedagógicas que rompem com o modelo tradicional da sala de aula com filas de carteiras viradas para a lousa, no formato de aulas expositivas e padronizadas. Eu gosto de pensar que a exposição ao risco, assim como o desafio e a tolerância ao erro, são ingredientes fundamentais para que o ambiente estimule a criatividade, tanto do educador, quanto do estudante.

ETB: O Instituto Rodrigo Mendes acredita que qualquer pessoa é capaz de aprender e que existem diferentes processos de aprendizagem – para isso existir, é preciso que a escola se reinvente. Como é possível realizar essa mudança? A criatividade pode ajudar?

Essa mudança não é trivial. Precisa envolver todos os atores da comunidade escolar na desconstrução de conceitos muito enraizados sobre o papel da escola, as formas de ensinar e as formas de aprender. Estamos falando de uma mudança de visão que implica o gestor da escola, a equipe pedagógica, as famílias dos estudantes e os demais profissionais da instituição de ensino. Alguns fatores essenciais que tenho observado são: a existência de uma liderança comprometida, que dê o exemplo por sua atitude e tenha generosidade para reconhecer seus equívocos; investimento na formação continuada dos educadores; criação de espaços de diálogo abertos a familiares e responsáveis e, acima de tudo, uma cultura de altas expectativas, de aposta verdadeira no potencial de cada estudante, respeitando a sua singularidade.

ETB: A criatividade é uma das dez competências gerais estabelecidas pela Base Nacional Comum Curricular. Quais são os desafios de se implementar a BNCC nas escolas nesse momento político atual?

Um dos desafios que tem sido objeto da nossa atenção é garantir que a criação dos currículos e a definição das diretrizes para a formação de educadores levem em conta as diferenças inerentes a qualquer grupo de estudantes, ou seja, assumam como premissa a necessidade de se garantir acessibilidade para todos em relação aos conteúdos curriculares.

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SAIBA MAIS! Rodrigo Hübner Mendes é um dos autores do novo livro digital do programa Escolas Transformadoras, “Criatividade: mudar a educação, transformar o mundo”. Baixe e leia a publicação na íntegra clicando aqui.

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