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“Só quando entrei no SERTA deixei de ter vergonha de ser agricultor”

“Só quando entrei no SERTA deixei de ter vergonha de ser agricultor”

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O Serviço de Tecnologia Alternativa (SERTA), localizado na Zona da Mata de Pernambuco, aposta no protagonismo social dos jovens do sertão para valorizar a agricultura familiar e transformar as pequenas propriedades rurais em fontes de renda

Por Beatriz Antunes
Fotos: Divulgação SERTA

Na escola tradicional, Germano Barros tinha vergonha de admitir que sua família vivia de agricultura. Não que precisasse esconder esse fato, já que lá “ninguém se interessava em saber o que os alunos faziam”, conta o atual diretor do SERTA e egresso da primeira turma do curso de agente de desenvolvimento local, iniciada em 1999.

Embora muita coisa tenha mudado na realidade do campo desde então, ainda hoje o estigma da agricultura como sinônimo de trabalho braçal, atraso econômico e cultura marginal persiste no imaginário de parte da juventude do sertão pernambucano. Seja pela cobertura da mídia, que noticia com ênfase as consequências nefastas dos períodos de seca, seja pelo desejo próprio da juventude de se aventurar pelo desconhecido e aderir ao sistema de consumo cada vez mais cedo, o fato é que a missão do SERTA se mantém atual. Estimular a pesquisa e a consolidação das tecnologias desenvolvidas pelos agricultores e modificar a realidade do campo juntamente com a das pessoas que nele residem é, desde a fundação da escola, em 1989, um dos pilares da pedagogia ali desenvolvida.

A lembrança que Germano tem de seus tempos de escola corrobora o que o fundador do SERTA, Abdalaziz de Moura, considera como um erro de origem da visão tradicional sobre o campo. Ao considerar a realidade rural por um viés tecnicista, em que só está em jogo o desenvolvimento tecnológico e a produtividade, deixam-se de lado as pessoas que vivem e modificam esse meio ambiente. Dessa forma, o SERTA – desde o princípio – colocou-se como ponto de apoio e estudo do homem do campo, de sua cultura e seus conhecimentos. Não é difícil perceber os resultados dessa visão: ao ouvir alunos e ex-alunos falando sobre suas experiências, chama a atenção o entusiasmo com que falam do futuro e da realidade local.  

 Como tudo começou

O coordenador de projetos do SERTA, Francisco Dantas, conta que no final da década de 1980, um pequeno grupo de técnicos e agricultores organizava mutirões para conhecer as propriedades de agricultura familiar, ouvir e conversar com os donos dos roçados e prestar assessoria técnica gratuita com o intuito de fortalecer a região de Glória do Goitá. Somente em 1989 é que o grupo se autodenominou Serviço de Tecnologia Alternativa. Por toda uma década, o foco dos estudos permaneceu no agricultor e na terra. Em 1999, no entanto, o SERTA foi convidado a participar do Programa Aliança com Adolescente para o Desenvolvimento Sustentável no Nordeste, financiado por uma agremiação de entidades privadas nacionais e estrangeiras. Foi então que se impôs a necessidade de entender os jovens do campo: quem eram eles, quais eram os seus problemas e anseios e como a educação poderia contribuir para sua emancipação? Traçar o perfil do jovem e adequar as estratégias pedagógicas para o novo público foi o primeiro passo. Em seguida, abriram as turmas e começaram a trabalhar na nova perspectiva.

Alunos do SERTA e o trabalho no campo: valorização da cultura local está entre principais objetivos da escola

Em 2010, quando o financiamento das empresas privadas cessou, a alternativa óbvia foi recorrer ao Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego, o PRONATEC. Mas havia um problema: para aderir ao financiamento do governo federal seria preciso modificar o projeto político pedagógico. O SERTA não aceitou, e a saída surgiu de uma fonte inesperada. Numa oferta sem precedentes, o governo do estado propôs financiar o SERTA diretamente.

Para Germano, não restam dúvidas de quais foram as motivações por trás dessa proposta. Após uma década de trabalho com jovens, gestores do serviço público haviam se dado conta do diferencial proporcionado pela formação do SERTA. Quando não retornavam às propriedades familiares, os egressos da escola empregavam-se com facilidade em conselhos municipais, estaduais e entidades da sociedade civil. Com isso, logo se tornou famosa a capacidade técnica e política desses jovens, e o governo não ia abrir mão de ter sob suas hóstias um centro de excelência. E a contrapartida não soava tão ruim assim: o SERTA teria apenas de se oficializar como escola técnica.

Foram 2 anos de escrita e reescrita de perfil do aluno, ementas e demais documentos necessários. Nesse meio-tempo, a entidade se manteve com financiamentos parciais de empresas privadas, de maneira que parte do tempo da equipe gestora era despendida em reuniões para levantamento de recursos. Não foi fácil, mas o financiamento estatal finalmente saiu, e até hoje, a cada dois anos, é preciso assinar um novo contrato.

Não à toa, entre os objetivos do SERTA para 2018, Germano elenca “pressionar para que nos tornemos política de Estado, e não de governo”. Mas o ano que vem reserva um passo ainda maior para a escola: “vamos requerer a licença para atuar no ensino superior”, completa Germano, com a confiança de quem está acostumado a plantar hoje para colher amanhã.  

Desafios

Alguns índices atestam o sucesso do SERTA, mas a queda nas taxas de evasão de jovens do sertão para as cidades está entre os que mais chamam a atenção. Embora a emigração não tenha cessado, hoje o ritmo de “perda de talentos” é duas vezes menor do que quando o SERTA começou, e Germano admite que é preciso fazer mais. Entre os desafios que a escola enfrenta está o estabelecimento de uma rede de comunicação e mapeamento dos egressos. Saber onde estão e como estão ajudaria a planejar alternativas pedagógicas para fortalecer o impacto da formação na vida do estudante. Mas nem tudo está perdido quando um jovem decide efetivamente deixar o campo:

A gente brinca que não adianta evangelizar a cabeça e o coração: precisa evangelizar o bolso também. Se o jovem não tiver dinheiro pra comprar uma moto para visitar a namorada no domingo, ele vai embora”, explica Germano, fazendo uma alusão bem-humorada ao processo de catequese das igrejas. Que, diga-se, pouco tem a ver com o processo de transformação na realidade local que o SERTA de fato almeja. Trabalhando com o conceito de realidade rural estendida, isto é, uma realidade rural que vai muito além do agrícola, o projeto político pedagógico foca no essencial: a capacidade de transformação dos que se formam ali. “Mesmo que eles resolvam deixar suas propriedades e ir para cidades, podem ser agentes de mudanças lá. Se isso ocorre, atingimos nosso objetivo.”

 Histórias de sucesso

O SERTA tem um canal no YouTube destinado a apresentar a um público amplo histórias de sucesso de seus ex-alunos. No canal Folha Verde, o internauta pode conhecer a experiência de Jeruza e Marilândia, egressas do curso de Agente de Desenvolvimento de Arte e Cultura, que em 2004 fundaram a estamparia Fasso Artesanato, especializada em motivos inspirados na cultura local, como o cangaço, festas populares e a bandeira do estado de Pernambuco, entre outros. O empreendimento deu tão certo que hoje funciona como farol para novos jovens da região de Glória do Goitá, que se inspiram no trabalho para criar os seus próprios empreendimentos.

Já Dona Maria, agricultora que estudou Agricultura Orgânica e Empreendedorismo em 2002, representa a mudança ampla que a formação significou em sua vida mesmo depois de adulta. Tradicionalmente beneficiadora de mandioca, ela não apenas declara que o curso mudou sua concepção da agricultura familiar, como respaldou sua conversão para a agricultura orgânica e, com isso, fez seu lucro crescer cinco vezes. O que no início servia apenas para a subsistência, hoje garante a inserção de Dona Maria num universo mais amplo: “Antes, nem para Recife eu ia, agora já somam mais de vinte viagens pra São Paulo”. O impacto também foi sentido pelo restante de sua família, uma vez que seus parentes passaram a também trabalhar na pequena fábrica e tirar seu sustento daí.

*A entrevista com Germano Barros, diretor do SERTA, foi realizada por Mariana Prado, do Programa Escolas Transformadoras.

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