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“Meu desafio é não repetir o que deu errado”

“Meu desafio é não repetir o que deu errado”

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Há quase 20 anos o CIEJA Campo Limpo atua como polo irradiador de transformação na rede municipal de ensino de São Paulo por sua pedagogia baseada no protagonismo do estudante e na gestão democrática

Por Beatriz Antunes, Mariana Antonieta Prado e Carolina Prestes
Fotos: Rodolfo Goud

É sempre curioso ver pela primeira vez uma nascente de rio. A princípio se idealiza uma erupção escandalosa do solo em direção ao céu, um pouco na linha de um poço de petróleo. Depois — quando a pessoa depara com um pequeno trechinho úmido de um terreno baldio, por exemplo — vem o susto: como algo tão pequeno é capaz de dar início a um rio? Trazendo o assombro para o contexto da educação, podemos nos perguntar como é possível que um projeto tão bem-sucedido e estruturado na maior rede municipal de ensino do Brasil tenha nascido não de uma mesa de sábios reunidos em torno de uma teoria de ponta, mas em um território com altos índices de violência e pobreza na periferia de uma das maiores cidades da América Latina? A história do CIEJA Campo Limpo nos ensina que a gestão participativa e o diálogo com a comunidade não apenas podem melhorar a qualidade do ensino local, mas também traz impactos significativos para toda uma rede de ensino.

Para entender esse fenômeno, é preciso conhecer a história dos Centros Integrados de Educação de Jovens e Adultos, os CIEJAs. Até 2003, a Secretaria Municipal de Educação oferecia educação para a modalidade jovens e adultos em formatos variados, que no entanto tinham em comum o fato de acontecerem em locais pensados para outros fins, seja para educação de crianças (nesse caso, escolas municipais de ensino regular ou até mesmo creches), seja para atendimento de outras demandas sociais, como centros comunitários, igrejas, salas cedidas em empresas etc. A partir de uma avaliação negativa da cobertura e eficácia do atendimento a essa fatia da população escolar, cujas necessidades específicas e foco na aplicabilidade do ensino ao mundo do trabalho, tornou-se clara a necessidade de pensar um modelo novo de EJA no município. E é aqui que começa a história de protagonismo do CIEJA Campo Limpo.

Ameaçado de fechamento por conta da má avaliação geral das escolas que ofereciam EJA na cidade, o centro dirigido por Eda Luiz estava com os dias contados. No entanto, a escola já funcionava com um modelo diverso do tradicional; não apenas oferecia aulas em três turnos diários para receber de manhã ou de tarde alunos que trabalhavam à noite, como apostava todas as fichas no diálogo com a comunidade para absorver demandas específicas e criar um profícuo sistema de parcerias com empresas locais. Os laços sociais entre escola e comunidade se mostraram cruciais para o movimento de resistência que se seguiu ao anúncio do fechamento pela Prefeitura.

Eda Luiz discursa em roda de conversa

Avisados pela gestora da intenção da Secretaria Municipal de Ensino de encerrar as atividades da escola, alunos e comunidade organizaram um protesto e conseguiram do secretário da pasta à época, Alexandre Schneider, uma visita à unidade. Dando-se conta de que aquela escola oferecia uma inovação que poderia ser referência para a rede municipal como um todo, não apenas por conseguir manter os alunos frequentando a escola, como também por atestar a relevância da escola para aquela comunidade, dado o movimento popular que presenciou, o secretário sugeriu à diretora que escrevesse um projeto aplicável à rede e que coubesse no Orçamento municipal. Caso o projeto fosse aprovado, a manutenção do CIEJA estava garantida.

Mais uma vez, dona Eda voltou-se para o coletivo. Reuniu-se com todos os diretores de outros CIEJAS da cidade e montou um grupo de trabalho, que tinha como meta criar um modelo aplicável a toda a rede. Ao cabo de pouco menos de um ano, Eda, no papel de representante de um grupo de gestores da rede municipal de ensino, conquistou a aprovação sem alteração da Secretaria. Desde 2007, os CIEJAs então passaram a adotar o sistema que dona Eda havia implementado em sua escola, e atualmente todos funcionam em três turnos consecutivos (manhã, tarde, noite) e em ciclos progressivos. O sistema em turnos é um dos segredos por trás do sucesso dos CIEJAs, mas na entrevista concedida pela gestora ao Escolas Transformadoras Brasil, Eda Luiz revela como fatores não curriculares também impactam a qualidade da escola.

Como a senhora montou o projeto?

Quando surgiu o desafio de reorganizar a modalidade de educação de jovens e adultos em São Paulo, fomos estudar a Lei de Diretrizes e Bases da educação. E aí nos demos conta de que a LDB não diz “isso pode, aquilo não pode”; é preciso interpretá-la. A EJA começa na exclusão. Se os alunos não tivessem uma experiência de exclusão na escola, teriam terminado o ensino fundamental na idade certa. O meu desafio era não repetir o que deu errado. Só com uma gestão democrática isso poderia ser feito. Ouvir da comunidade o que ela pretendia para a escola. De cara percebemos que era preciso usar de outra forma o tempo e o espaço da escola, ao mesmo tempo que tínhamos que nos encaixar na lei.

E o que a comunidade queria?

Logo que chegamos aqui no Capão Redondo — um dos bairros mais violentos do mundo, segundo o mapa da violência — pensamos: será que é atrativo para um jovem vir para cá? Não. Mas eu precisava desse jovem aqui para ter a escola. Sem aluno, ia fechar. E a maneira foi divulgar, abrir os portões e falar: “Vamos construir juntos”. A primeira coisa que eles pediram foi uma escola sem carteiras, com mesas coletivas. Aí o governo aceitou e comprou as mesas, que temos até hoje. E isso mudou a nossa metodologia: não dava para fazer uma aula expositiva com aquelas mesas, senão sempre ia ter alguém de costas para o professor. Foi isso que nos levou a uma metodologia diferenciada. Também começamos a pensar nos espaços e em como nos organizaríamos. Toda a ousadia nos veio como consequência do que a comunidade falou.

Por que a prefeitura queria montar os CIEJAs e como a senhora participou desse processo?

No começo a proposta era fazer educação de jovens e adultos não só no período noturno, mas também no diurno e no vespertino. Porque as pessoas que mais precisavam de escolaridade trabalhavam à noite e a EJA só era oferecida no período noturno. E aí nasceram os CEMES. Mas eles tinham uma configuração muito diferente daquela do CIEJA. O material era todo apostilado, o conhecimento era dividido por disciplinas. Vimos que tínhamos que mudar, e mudamos para Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos e colocamos também outras coisas no currículo, como práticas de escritório, informática.

Aluno do CIEJA em sala de aula

O CIEJA é um projeto ou um programa?

Era um projeto da Secretaria Municipal de Ensino até 2007. Em 2007 a prefeitura achou que não havia mais necessidade desse tipo de projeto, e nos desafiou. O secretário da educação na época disse que se a gente conseguisse escrever o projeto sem infringir nenhuma lei, finanças, atribuição, a Secretaria tornaria o CIEJA um programa. E aí reunimos os CIEJAs todo mês, ouvimos alunos, funcionários, professores. Em 2008 ele foi aprovado pelo Conselho Municipal de Educação sem nenhuma objeção. No dia 29 de dezembro de 2012, o secretário me ligou e disse: “Estou saindo da secretaria e em minha mesa deixo assinado o CIEJA como programa, e isso dará pra vocês uma segurança de que ele irá permanecer sobre qualquer governo”. O projeto sempre ficava naquela de ser aprovado ou não, dependendo do governo que assumisse a prefeitura. Então agora somos um programa de educação de jovens e adultos.

O professor do CIEJA escolhe duas vezes a escola: primeiro, presta o concurso geral para dar aula na rede municipal de ensino, depois, se inscreve para uma seleção específica para o CIEJA. Isso favorece o projeto?

Existe muita gente que não gosta desse sistema e defende que nós teríamos que passar por todo o processo e ser igual às outras escolas da rede. Mas eu acho que, por sermos uma modalidade, cada escola deveria ter muito claros os seus objetivos, os princípios que defende. Quando o professor se inscrever, não importa que ele já seja da rede, ele tem que ter claro o que aquela escola defende, o perfil e as lutas daquela comunidade, o que ainda se pretende fazer ali para garantir uma educação de qualidade… Porque o projeto não se garante se as pessoas não trabalharem por ele. Já tive professor que falou: “Não, isso é muito louco para mim. Prefiro minha sala de aula, porque lá eu fico quieto, dou meu conteúdo e vou embora”. Aqui não: a gente estuda demais, a gente ouve o aluno. Tenho professores que estão aqui há 18 anos, outros que vão embora logo, outros estão chegando. O sistema educacional brasileiro será mudado pelos alunos, não por um político, não por um teórico. A gente tem muito aluno que chega dizendo que foi expulso de outra escola porque fez isso, aquilo. Aqui não tem isso, aqui eles têm voz e escuta.

Como é o acolhimento dos novos professores?

Recebi oito professores novos na sexta-feira. A primeira coisa que fiz com eles foi andar pela comunidade. Fui mostrar quem são os nossos alunos e a nossa comunidade. Porque eles vêm de bairros diferentes, nunca viram uma viela, e aí lá pra frente vão idealizar o aluno, perguntar por que ele não aprende, vão julgar o aluno. Mas espera aí: vamos ver onde esse aluno mora, o que ele passa, se tem lazer, espaço, esporte. Fomos andando pela comunidade e só nessa caminhada você já vai quebrando os primeiros impactos. Eles nunca tinham pisado em uma viela; meus alunos todos moram em vielas! Na volta, os professores me agradeceram: “Foi o melhor acolhimento que tive na escola”. É a equipe administrativa e pedagógica que tem de sentar e preparar essa acolhida. Você pode mudar completamente o seu ano com um simples acolhimento, fazendo coisas que levem a pessoa a se sentir também como responsável pelo aprendizado que vai ocorrer naquele ano.

Como funciona o trabalho por módulos?

Os alunos escolhem os temas. Para esse tema ser aceito, nós construímos uma situação-problema que o aluno tem que resolver. Aí o professor vai introduzir aquilo que cada área precisa trabalhar, linguagens e códigos, história e geografia, ciências, filosofia. São quatro temas, e o aluno passa pelos quatro durante o semestre. Ano passado escolheram Comida. Por que eles quiseram comida? Porque a maioria aqui faz serviço informal de marmita, bolo para fora. A palavra que eles escolheram foi “comida”, não “gastronomia”, “culinária”. E aí eles levaram isso para todas as áreas do conhecimento. Eles aprendem através daquilo que faz sentido para eles.

Alunos fazem ginástica

Acredita que a sociedade só valoriza o saber escolar e exclui os outros tipos de conhecimento?

As pessoas trazem muitos saberes. Eles não sabem ler, mas estimulam os filhos a estudar. Temos chefes de cozinha que criam o cardápio, mas o restaurante traz cozinheiros franceses para assinar. O nome deles não aparece. Tem senhoras que chegam aqui sem ler e escrever, mas sabem qual é a erva que cura uma pessoa. Essas mulheres benzem, curam, são parteiras, aconselham casais. Como não tem posto de saúde, o pessoal da comunidade vai atrás dos idosos quando precisa de cuidado. A escola precisa deixar esses saberes serem mostrados. Buscamos conteúdo fora, mas está tudo dentro.

O espaço do CIEJA também é acolhedor.

Se precisar a gente muda a sala inteira para receber o cadeirante, o que usa muletas, o idoso. Mesmo quem não é aluno a gente escuta, porque em alguns espaços esse pessoal é “transparente”. Aqui a gente ouve, chora junto, come junto. Os banheiros são mistos porque não tinha banheiro pra todo mundo. Quando recebi o pessoal do TransCidadania, a primeira coisa que eles elogiaram foi isso: “Aqui não tem que brigar pra saber que banheiro posso usar!”.

A senhora conhece muitas histórias inspiradoras. Gostaria de nos contar mais alguma?

Uma moça de uns 42 anos tirou a nota mais alta do ENEM e entrou na federal do Paraná. O pai não deixou os filhos estudarem, ela casou cedo, teve um filho com necessidades especiais. Quando ela chegou aqui, o filho tinha 7 anos e estava começando a andar. Quando ela queria uma fuga da realidade, ela lia, escrevia. Se inscreveu no ENEM, e claro que o entusiasmo dela a fez querer mais. Agora ela vai mudar com a família toda para Londrina. Tenho avós que vêm estudar para incentivar os netos, tenho uma mãe que entrou para ajudar o filho a sair das drogas e acabou se formando em odontologia.

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